"Extinguir o Ballet Gulbenkian foi uma decisão normalíssima no dever de gerir a instituição"

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O fim do Ballet Gulbenkian foi um dos maiores riscos que assumiu durante o seu primeiro mandato?

Não foi um risco, antes uma decisão pensada e baseada num fundamentado relatório que Teresa Gouveia apresentou ao Conselho. Que correspondeu a uma opção naturalíssima: as fundações não são obrigadas a manter para a eternidade aquilo que fazem. Pelo contrário, o seu dever é procurar inovar e contribuir para a inovação. A extinção do Ballet Gulbenkian foi uma decisão que eu considero normalíssima dentro daquilo que é o dever de gerir uma instituição como a Fundação Gulbenkian.

O mesmo desinvestimento se receou no que respeita ao Centro Cultural Gulbenkian em Paris...

Não, nunca foi intenção.

Não foi o que se disse!

Pelo que se diz não sou responsável. A decisão foi encontrar outras instalações onde pudéssemos ter uma biblioteca em condições do que deve ser no século XXI. Neste momento estão em curso as obras noutro edifício, onde teremos uma biblioteca com livre acesso e um conjunto de terminais que permitirão aceder a bases de dados que vão enriquecer enormemente a maior biblioteca portuguesa fora de Portugal e do Brasil.

Vai ter mais algumas decisões radicais durante este seu mandato?

Neste momento não há nenhuma decisão assim - que eu também não classifico de radical -, mas todos os dias se tomam decisões. O que procuramos é responder aos novos problemas das sociedades, e por isso a Fundação está na área do ambiente; nas migrações; no diálogo intercultural; em projectos de inovação social e a desenvolver investigação das doenças negligenciadas. A preocupação é responder aos sinais dos tempos e, se possível, antecipar o futuro. Esse é o dever das fundações.

A Fundação fez questão de ter papel activo no preparar da Conferência de Copenhaga. Porquê?

O que fizemos foi realizar uma conferência antes do evento de Cope-nhaga com especialistas internacionais de modo a contribuir para o esclarecimento e informação da opinião pública. Uma das nossas responsabilidades é a advocacia das causas e o chamar de atenção para problemas em que o papel da opinião pública pode ser muito influente nas políticas públicas. É o caso do ambiente.

Foi por essa razão que disse que os cidadãos já entenderam que é preciso mudar mas que os políticos ainda não?

Creio que aí é muito importante o problema da agenda. Para um político que de quatro em quatro anos tem de ir a votos, o curto prazo, o imediato terá certamente mais peso do que o longo prazo, em que os resultados não se vêem logo. Por isso é que deve haver instituições libertas do calendário político, que contribuam para que a sociedade faça as opções que tem de fazer.

Foi uma das razões por que o saldo da Conferência de Copenhaga não foi tão positivo como se esperava?

A Conferência de Copenhaga caiu num momento em que as grandes preocupações eram a crise económica e financeira e, portanto, os problemas ambientais fo-ram colocados numa agenda não prioritária. A meu ver, quando estamos a discutir sustentabilidade, energia, alterações climáticas ou protecção da biodiversidade, a necessidade de agir não é de hoje, é de ontem. Também aí é a investigação científica que tem de dar bases sólidas para as decisões e é a mobilização da opinião pública que influenciará os decisores.

Além dessa preocupação social, também é uma forma de perpetuar a própria Fundação. Afinal, uma grande parte dos activos está no petróleo, enquanto o futuro serão as energias renováveis?

Onde nós também estamos a investir, apesar de que o petróleo continuará a ser uma matéria- -prima indispensável na indústria química e na farmacêutica. O problema é que estamos a consumir petróleo queimando-o com efeitos nocivos e gastando a um ritmo que certamente não será possível repor em termos de reservas. Entendemos que nos consumos devíamos caminhar para uma alteração estrutural, e esse é um dos problemas desta crise, pois não surge uma evolução tecnológica que permita encarar, no domínio da energia, o futuro com mais tranquilidade. A última grande revolução tecnológica terá sido o chip...

Ainda é fundamental a Gulbenkian continuar a formar as elites do País através da concessão de bolsas?

Na política de bolsas, estamos a procurar intervir nas áreas não cobertas pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e a procurar dirigir para fora de Portugal. Por exemplo, para países de expressão portuguesa e estudiosos estrangeiros em áreas prioritárias.

Foi através de bolsas da Gulbenkian que Cavaco Silva ou Francisco Louçã se especializaram...

E Belmiro de Azevedo! Só para falar dos nomes mais mediáticos.

Acha que Calouste Gulbenkian se revia na actual Fundação?

Calouste Gulbenkian, talvez pela grande experiência de vida que tinha, sabia muito bem que o mundo muda e evolui. Por isso, ao constituir a Fundação definiu apenas os quatro territórios de intervenção da instituição e não disse mais nada sobre a sua missão. Portanto, tinha consciência de que a Fundação ia responder a sociedades muito diferentes daquela que era a do seu tempo. O que nós procuramos é continuar a assumir a responsabilidade de sermos exigentes, rigorosos, independentes como ele sempre foi ao longo da sua vida. São esses os valores que eu penso que são a expressão do respeito pelo acto de generosidade do fundador.

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